Páginas

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Bósnia-Herzegovina: O (único) lado bom da Copa

O lado bom da Copa está aqui: A Bósnia-Herzegovina (Foto)
Hoje venho no Clarim falar de um lado bom da Copa deste ano aqui no Brasil.

Muitos vão me chamar de alucinado, louco, ignorante aos nossos problemas, petista e tudo mais que virá. Mas, como diz o sábio, como vou falar se ninguém me deixar explicar? O que venho falar de bom desta copa que já ruiu nossos cofres e causa sorrisos malditos nos corruptos e ladrões de colarinho branco não está aqui em terras tupiniquins. Nenhum estádio, obra, ação, novidades, preços, não é nada disto que você está pensando.

O lado bom desta copa está nos Bálcãs, mais precisamente em um pequeno país de belezas únicas, povo acolhedor e que por muitos anos foi vitima da ignorância de seus mandatários em busca de limpezas étnicas e barbarismo para atingir seus objetivos. O lado bom da copa de 2014 está na Bósnia-Herzegovina.

Fogo no parlamento em Sarajevo, uma das
tantas imagens marcantes da guerra (Foto)
Um país encravado no meio do que era até 1991 a Iugoslávia dos tempos do Marechal Tito. A Bósnia era só mais um dos tantos setores administrativos que compunham esta nação líder dos ditos não-alinhados e que, dentro de seu território, reunia uma mistura de culturas, religiões e etnias que viviam, estudavam, casavam e compartilhavam juntas. Paz esta que não sobreviveria a partir de 1992, quando Croácia e Iugoslávia, as mais poderosas da região, resolveram dividir seu território.

Quatro anos de sofrimento. Como imaginar que a poucos quilômetros de cidades cosmopolitas da Europa havia um antro de barbarismo e sangue digno de Segunda Guerra? A Copa de 1994, as Olimpíadas em Barcelona, tudo corria tranqüilo no mundo enquanto os muçulmanos e a minoria sérvio-croata se digladiavam em busca de espaço e partilha com gosto de ignorância. A dita limpeza étnica capitaneada pelo general sérvio Ratko Mladic foi a página mais cruel que se podia acreditar acontecer no conflito.

Um pouco de como foi a Guerra Civil Iugoslava (1991-1995)

Alegria incontida. O gol de Ibisevic bota o país pela primeira
vez em um mundial (Foto)
Jamais poderia acreditar o ex-presidente bósnio Alija Izetbegovic no longínquo 1992 (ano que o país entrou em guerra civil) que a Bósnia voltaria a ouvir estouros nas ruas. Mas desta vez o povo, marcado ainda pelo que foi o conflito, vibrava, se abraçava e comemorava junto um feito inédito para seu esporte. A seleção nacional se classificava pela primeira vez a uma copa do mundo, batendo no sufoco a Lituânia por 1 a 0 fora de casa.

Nas ruas de Sarajevo não havia divisões étnicas. Procurar distinguir sérvios, croatas muçulmanos era praticamente impossível. Todos estavam em êxtase depois de anos de batidas na trave e frustrações ao ficar de fora de um mundial. A vinda da Bósnia para a copa de 2014 é um daqueles caprichos do esporte em seu lado mais feliz que faz nações, comunidades e pessoas sorrirem com suas vitórias. Em um país que busca a cada dia apagar de sua memória os horrores de uma guerra civil, a classificação é um bom incentivo para continuar adiante.
Festa nas ruas de Sarajevo: Sem diferenças, apenas gritos. (Foto)

E por que este seria um lado bom? Talvez a Bósnia não vá muito longe na copa e saia na primeira fase.
Talvez ela não será lembrada pelas grandes agencias de imprensa e canais licenciados por ser um mísero time sem tradição em torneios como a copa. Mas para seus habitantes a ida para a competição conseguiu unir um país em torno de uma conquista. Quem sabe que mais vitórias aguardam os bósnios, não só no futebol, mas em todas as áreas possíveis em que se faz necessária a união de um povo.

Se a copa de 2014 para nós, brasileiros, nos envergonha e revolta a cada dia com seus escândalos, roubos, negligências, roubos e indignação, ainda há um lado bom para um povo distante de nós e que pode estar até desconhecendo toda a ruína que passamos em nosso país carente de educação, saúde e segurança, entre outros. Graças ao esporte e seu lado bom, a Bósnia-Herzegovina sorri uma vez mais. E que não fique no esporte apenas as suas conquistas.

Sejam bem-vindos, bósnios. Estou com vocês!

Nenhum comentário:

Postar um comentário