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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Ronnie Von: O príncipe rebelde, sua revolução e sua marca

Príncipe e revolucionário: Ronnie Von (Foto)
Olha eu nem sei de onde venho nem pra onde vou. Ninguém me escuta e nem sei quem sou...

Com estas palavras o então príncipe da brotolândia Ronnie Von renunciava seu posto no reino de um tal Roberto Carlos para buscar sua própria estrada. O ano de 1968 recebeu com choque o primeiro dos seus três discos que compõem a chamada fase psicodélica de Ronnie. Marcou assim sua desvinculação de dois movimentos ditos dominantes da música nacional daqueles tempos: A Jovem Guarda e a recém-surgida Tropicália.

Quando A Praça estourou nas paradas em 1967, Ronnie ainda era um jovem de família bem falada que do nada se viu em um palco cantando temas que faziam os brotos suspirarem ao galã que parecia estar nascendo.  No entanto, o caminho a trilhar era bem diferente daquele que parecia lhe estar previsto. Comandante do seu próprio programa na Record intitulado O pequeno mundo de Ronnie Von, começou ele ali a mostrar uma nova proposta musical que meio país ainda se torcia para entender a mensagem.
Ronnie (esq) e seu pequeno mundo. Ao fundo, Os Mutantes (Foto)

O programa era o antônimo do que pregava a Jovem Guarda, lentamente Ronnie deixava claro até mesmo a Polydor, sua gravadora, que não era apenas um rosto bonito. Com a ida de seus protegidos – Os Mutantes – para o lado da Tropicália e as recusas da gravadora em seguir o movimento, era chegada a hora de começar a mostrar quem ele realmente era. Seu primeiro LP da nova fase saia em um momento tenso e oportuno. Muito além da troca de presidência na Polydor brasileira, o Brasil iniciava o período mais negro e repressivo da Ditadura Militar com o AI-5.

1968: O primeiro disco psicodélico de Ronnie Von (Foto)
O disco de 1968 seria precedido de outras duas grandes obras que hoje são disputadas a tapa no mercado de raridades musicais em todo o mundo: A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império de Nunca Mais (1969) e Maquina Voadora (1970). Fracassos comerciais? Pode parecer incrível, mas foram. Em um país onde o que é comum e simples é mais interpretável e ouvido por grande parte do mercado, receber uma nova forma de som foi um susto e uma repulsa que fizeram ambos os três discos serem simplesmente esquecidos pelo do público.

Ao voltar para 2014 e descobrir a obra quase perdida de Ronnie Von, chega a se ter uma reação de surpresa pela qualidade, pela ousadia na busca por recursos e letras diversificadas e pela proposta que, garanto a muitos, surpreende para alguém que qualquer um poderia pensar que fosse mais um filho da Jovem Guarda.

Os Mutantes: Tudo começou no programa de Ronnie (Foto)
O trabalho na psicodelía do príncipe virou em 2013 um excepcional documentário, e junto com ele a marca histórica da volta do cantor aos estúdios após 17 anos, e também pela primeira vez centrando seu repertório entre os três famosos discos.

Marco de uma tentativa de revolução musical no Brasil? A intentona de Ronnie Von foi sem dúvida geração atual de cantores, cantoras e bandas que mascaram sua falta de criatividade em releituras e letras estritamente comerciais para agradar uma platéia em sua maioria acéfala e sem discernimento musical do bom e do ruim, salvando-se, claro, as raríssimas exceções de ambos os lados.
lembrada muito tardiamente. No entanto, a sorte que fica é a que o criador ainda anda muito bem vivo em nossa música a tempo de ser idolatrado pelo que fez. O seu experimentalismo é uma lição a uma

Prestes a completar seus 70 anos de idade, bem casado e metrossexual assumido, Ronnie Von tem marca importante na história musical do país. Não como integrante de uma legião de músicos de mercado fonográfico, mas como alguém que ousou mudar. Nas palavras de Rita Lee, eterna amiga desde os tempos de TV, uma frase basta: Ele foi tão importante quanto Roberto Carlos, porque ele apresentou outra coisa, ele permitiu ser o que a gente é.


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